Compreendia
…a tristeza
…a melancolia
e a depressão…
Neste dia
sem certeza…
na alma anemia…
e na boca… Rejeição
Compreendia
…a tristeza
…a melancolia
e a depressão…
Neste dia
sem certeza…
na alma anemia…
e na boca… Rejeição
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O tempo passa; passa bastante; mas é estranho; tem coisas que não mudam… Sabe; eu esperei bastante para escrever sobre o dia de hoje; acho que eu espero esse dia faz uns dois anos; eu não sei… Mas hoje é um dos dias mais esperados da minha vida; só quero que saibam disso… Sabe; eu achei que eu ia escrever coisas bonitas; achei que ia falar sobre como as coisas mudaram e como tudo está diferente; de como agora eu me sinto melhor; falar sobre como sou melhor hoje; mas eu estava enganado; ontem à noite eu vi que eu estava enganado; pois esse dia esperado chegou e eu só tenho coisas normais a dizer; eu não sinto vontade de dizer sobre as coisas que mudaram; sinto vontade de dizer como as coisas não mudaram… Decepção? Não cara; é assim mesmo… A vida é assim mesmo… Há dez anos; o que importa de fato são as coisas de dez anos atrás; eu vou lhes contar como as coisas eram há dez anos atrás… Sabe; eu me sentia um pouco sozinho; na verdade eu me sentia muito sozinho; eu tinha alguns amigos; mas chegava o final de semana e eles tinham coisas para fazer; então; quando chegava os finais de semana eu me sentia bem sozinho; era assim… Tinha o meu primo Evandro; eu gostava muito dele; ainda gosto; geralmente eu ia a casa dele pegar alguma carta de Magic que tinha chegado pelo correio; era assim; e ontem eu fui a casa dele buscar umas cartas de Magic que chegaram pelo correio; como há dez anos atrás… Tinha o Leo; o Leo era um cara que era meu amigo; agente andava junto o dia todo; mas no final de semana ele sumia; ontem tive vontade de ir a casa dele à tarde; mas não fui; eu não vi o Leo ontem, apesar de ter tido a vontade… Tinha os irmãos Carlos; o André e o Guilherme; pelas sextas à noite geralmente eu não sabia onde eles estavam; ontem eu não sabia onde eles estavam… Pelas sextas à noite geralmente eu me sentia sozinho… Sabe; de vez em quando, à tarde; eu ia à casa do Eduardo… Nos ficávamos a conversar na área da casa dele; sabe essa semana eu fui lá foi bem parecido; mas no final de semana era outra historia, porque ele tinha os amigos dele; ontem ele deve ter saído com seus amigos… Tinha meu primo Alexandre, ás vezes eu dormia lá; mas logo ele vai casar, ele tem a esposa dele; mas eu amo ele ainda; eu gosto dele ainda, como há dez anos atrás… Há dez anos atrás… Há dez anos atrás eu não bebia as sextas feiras; ontem eu não bebi; e era sexta feira… Só falei de garotos não é; há dez anos atrás, não havia garotas… Ontem não ouve garotas… Há dez anos atrás eu saia pelas ruas, e via os caras bonitos e legais com suas garotas; eu me sentia triste, inferior, pois eu nunca tinha tido uma garota… Eu me sentia inferior porque eles tinham garotas e eu não tinha; era assim; desculpem-me eu era criança… Ontem eu não sai pelas ruas; eu não saí; porque eu sabia que os caras estariam lá; com suas garotas; eles são bonitos e legais, e tem garotas; eu não queria vê-los com suas garotas; eu não queria; porque eu me sentiria triste e inferior… Hoje é diferente, porque antes eu queria estar com uma garota, não importando muito qual fosse; eu somente queria estar com uma para saber como era; eu não sabia como era… Ontem, se eu saísse, eu veria os meninos com as garotas que eles amam; eu ficaria triste por não estar junto da garota que amo; isso ia doer… Ficou mais intenso não é? Eu estava acostumado a ver os caras com as garotas que amavam, sem estar com a garota que amo; eu tinha me adequado; eu tive que me adequar; mas ontem, ontem foi diferente; isso teve muita importância; muita; do fundo do meu coração, ontem, isso teve muita importância… Eu me senti sozinho; inferior e triste… Me desculpem; acho que eu ainda sou um pouco criança… Foi como a dez anos atrás; me senti rejeitado; me senti sozinho… Acho que eu tenho direito disso… Claro que tenho… Com 14 anos eu tinha esse direito, que mais parecia um dever; porque com 24 eu não posso mais? Mas de qualquer forma foi bom… Pois rejuvenesci uns dez anos nesse sentimento… Hoje acordei; ainda triste; ainda me sentindo inferior; ainda me sentindo sozinho; mas sabe, hoje parece que isso é normal, não me alarmei mais; não me causou desespero e vontade de mudar essa situação; foi igual a 10 anos atrás, eu abaixei a cabeça e aceitei a tristeza, aceitei a solidão, aceitei a inferioridade… O tempo passa; passa bastante; mas é estranho; tem coisas que não mudam… Há dez anos atrás, eu tinha vinte reais; e eu fui a casa do Leo; ele foi comigo em uma banca de jornais; eu comprei o Led Zeppelin IV… Coloco esse dia como um marco; é o dia que faz 10 anos que me entreguei ao rock; que comecei a fantasiar com Pink Floyd, Led Zeppelin e Black Sabbath; como se tudo fosse algo de outro mundo; como se fosse algo transcendental; como se fosse uma religião… Dia 2 de julho eu comprei o Dark Side of the Moon do Pink Floyd; foi um dia em que eu me recordo; eu me senti triste; sozinho; eu me recordo, estava frio; mas por que não o dia 2, e sim o dia 16… Eu não sei… Acho que porque no dia 2, eu ouvi o cd que comprei e tudo mudou dentro de mim, não que a tristeza e a solidão tivessem ido embora, mas me transportei para outro mundo; foi algo mágico… E no dia 16, eu ouvi o CD que comprei e nada mudou; eu fiquei com medo porque não consegui entender; não consegui gostar; foi estranho… Mas porque achar isso mais importante? Deveria ser menos importante não é? Eu acho que não… Porque sinto na vida que não importa tanto muito as coisas que nos apaixonam com facilidade nem as coisas que nos fazem gostar delas com facilidade, pois essas parecem que tende a irem embora, a nos abandonarem, a se despedaçarem… Então o que importa? Talvez, o que importa, são as coisas que nos incomodam, que nos amedrontam, que nos fazem repensar o que somos; porém essas coisas são mágicas, pois apesar de nos incomodarem, amedrontarem, sentimos que temos de amar essas coisas independente do que elas façam para nós, temos de amá-las sem contestação… Assim, quando enfrentamos o medo, o incomodo para tentar amar essas coisas com toda a força, nos jogamos em uma longa e incerta jornada; e quando conseguimos amar tais coisas de verdade, a jornada acaba; quando o medo passa, o desconforto de despedaça, nasce uma espécie rara de amor; um amor que fica gravado na alma e nada, nada nos tira esse amor; é uma amor profundo e que parece inarruinavel… Com o Led IV foi assim; ele me causou incômodo; medo e incertezas; porém eu sabia que eu deveria amá-lo independente de tudo; e o que aconteceu? Nasceu um amor transcendental por um pedaço de plástico com algumas canções gravadas; nasceu uma devoção religiosa àquelas músicas; é forte e parece que jamais passará… Já o Dark Side… Sei lá; nem sempre amo ele; só de vez em quando… É assim… Tirei uma lição disso e parece que levo essa lição até hoje; essa lição sobre amar… Se sentes que tem que amar algo! Se sente que tem que amar algo com o fundo de sua alma… Se sentes isso; lute por esse amor; não fuja! Lute!… Mesmo que ele te machuque; mesmo que ele te mate; mesmo que ele te faça a pessoa mais infeliz do mundo; lute! Pois as dores fazem parte do caminho; do caminho para alcançar a espécie mais bela de amor; o amor eterno… É assim… Escrever me fazia mal; às vezes me fazia o cara mais infeliz do mundo; me deixava perturbado, doente… Mas sei lá; eu sentia que tinha que amar aquilo de verdade; eu sentia; que tinha que amar a literatura como a mim mesmo (eu não sou tão bom em amar a mim mesmo)… E sei lá; nasceu um amor; um amor que nada parece ser capaz de varrer; é um amor que está gravado; gravado no fundo da minha alma… Hoje faz uma década; uma década que comprei o Led Zeppelin IV; uma década que me pré-dispus a amar algo intensamente; mesmo sem saber o que era aquilo; nem o que aconteceria; mas me pré-dispus a amar; e amei; amo; e por muito tempo vou amar… Foi assim… Há dez anos atrás foi assim; e hoje, parece que ainda é assim… Saudades do meu velho primo Alexandre; do meu querido primo Evandro; do Léo Coelho, grande companheiro… Saudades do Eduardo; saudades do Carlos Guilherme e dos Carlos André… Saudades da Voltarelli também; ela era uma grande amiga na época… Saudades do Victor; velho amigo também… Há 10 anos eu os amava; e ainda os amo… Talvez para sempre irei amar… Acho que foi isso que o Led IV me ensinou; a amar as coisas; a amar as coisas de verdade… Depois aprendi a amar as pessoas; mas esta é outra história; quem sabe daqui 10 anos eu conte… Mas é isso; hoje é o dia tão esperado; eu não sei o que fazer… Acho que vou para o meu quarto (como há dez anos) e ouvir o Led Zeppelin IV…
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Eu sinto vontade de falar desse cara; não sei, mas eu sinto vontade de falar desse cara… Tem coisas que nos une, não sei… Por exemplo, o basquete, mas isso também nos desune; são as tensões da hora do jogo; eu sei… Isso não importa… Além disso, tem essa mania de escrever; essa mania de querer fazer rimar, de querer se expressar; essa mania de querer arte; querer fazer como que esta esteja em toda parte; essas manias; mania de jogar basquete; mania de beber e mascar chiclete; a mania de querer, ir um pouco além, além da esquina, além da rima… Esse cara ai é complicado, atribulado; é indomado… É assim… Mas não sei se é pela a poesia; sei lá; o acho alguém legal; seu poema alcança o genial, é… Não sei rimar como ele; até sei jogar igual, talvez melhor, não sei… Disso ele não vai gostar… Não importa… Tem coisas que eu queria; tipo, ver o Necrópole publicado, registrado, revisado e aclamado… Ele não sabe, mas eu já li inteiro… A que eu mais gosto é Fervura; num calor latente; evaporo-me; arte… Gosto do anjo caído; o anjo das sombras; o anjo que erra; acho que esse poema é o que mais o expressa ; ele é um anjo caído; assim como Kerouac; Bukowski; caído porque todos os bons artistas de hoje em dia são caídos… Ele é caído porque não dorme; porque tem fome; sede; sede de justiça e de verdade; e no mundo de hoje, sentir essa sede dói; machuca; maltrata… Eu mesmo desisti; desisti de querer justiça; peço a Deus para que o faça desistir também… Pode ser que seja pior, pode ser que seja melhor; penso que talvez seja necessário deixar a vida levar, temos que desencanar; porque a justiça não é desse mundo; calma Beto; calma; Deus está lá e sabe o que faz… Descanse, amanhã é outro dia; um novo dia; um lindo dia; Saia pela Necrópole; Avanti Populi! Se eu o encontrasse agora, o que diria além de oi, tudo bem? E ai? Como está? Eu diria: vamos trabalhar para este Necrópole! Estou disposto a trabalhar para vê-lo por aí, voando como um pássaro, um condor quem sabe… Ele é poderoso, eu sei… Só precisa ser cuidado… Ele anda jogado… Mas há de voar! Há de voar! O Necrópole vai voar! Eu tentei gravar o Beto um dia… Eu queria e quero fazer um documentário dele… Eu comecei; mas não tenho aonde editar… Eu não tenho câmera; não tenho nada… Por isso escrevo; porque fazer cinema é caro… Eu sei que não é por causa disso, mas eu achei legal a frase… Então… Quando eu tiver uma câmera eu vou te filmar cara! É; te filmar a falar; recitar; contar sobre as coisas; sobre a vida; sobre a arte; sobre a poesia… É… Poesia; o vício desse cara… Viciado em letras; cheira o V; fuma o D; pega várias silabas engole num gole de vodka; pega algumas palavras, mistura com Coca e manda para goela; come e bebe rimas; depois de tanto engolir; vomita; vomita em algum papel… Alguma poesia; algum disparate… O pior de tudo que o vômito rende prêmios! Ele ganha um monte… É massa… Eu não o vejo sempre… Não venho sempre para Porto… Ai eu sumo; eu assumo… Fico meio sem tempo; escrevendo; tocando; viajando… Eu queria vê-lo mais; escrever umas coisas juntos; sei lá… Gosto do cara… Eu o chamo para beber; mas eu disse, ele é complicado; atribulado… Ele me ensinou muito; em pouco tempo, ele me ensinou coisas importantes; antes eu escrevia de qualquer jeito, o que saísse saia; e era isso ai… Mas ele me mostrou que tem que enfrentar o texto, brigar com as palavras, esculpir os verbos; a briga é braba! Depois que ele me ensinou como é; eu fiz alguns poemas; Naúsea Feral; Nefasta Fé; Suicídio; Morte, entre outras… Mas não foi só na poesia que se refletiu seus ensinamentos, se refletiu na prosa também, ajudou, mudou e me fez melhorar muito… Hoje, posso e tenho de chamá-lo de Mestre… É cara… Sou um de seus aprendizes, discípulos… Aprendiz do escultor; escultor de verbos; letras e de idéias; emoções; de dores; dissabores; e de muito mais… Mestre Beto Bellini! Gosta do Bob Dylan… É Beto… Lembro quando eu disse que eu escrevia; surpreendeu-te; lembro desse dia; foi depois do Basquete; nós ficamos conversando enquanto o sol ia embora… É cara… Espero que agente se encontre mais; por essa cidade que sem saber, respira arte… Que agente beba menos e escreva mais… Que engavetemos menos e publiquemos mais… Que soframos menos e durmamos mais… Que odiemos menos e amemos mais… Que no basquete, briguemos menos e joguemos mais… Em janeiro eu escrevi um negócio sobre ele, para publicar no Jornal do Porto; dentre as coisas que eu escrevi, estava uma descrição do estilo da arte dele, eis aqui um pedaço: “Sua arte é como uma navalha afiada, provocativa, rebelde e aguerrida, sempre em prontidão para talhar as idéias mais mesquinhas, possui uma forte tendência a provocações políticas; apesar de criar em perspectivas marginais ele mantém seu cultivo acadêmico da linguagem, isso traz originalidade a sua estética.” É isso ai cara… Vida longa a ti e à tua poesia!
Ao mestre com carinho, Leo Vituri…
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Tens Fogo?
Explicações: “Que sentido tem gravar uma coisa que ninguém vai entender?” foi isso que Felipe Almeida me perguntou na época do Tens Fogo; hoje vejo que ele estava certo, mas eu havia visto muito Sganzerla e estava com concepções de arte um pouco rebeldes; então, para desfazer o erro, farei a explicação do Tens Fogo; sei que o Felipe Pacelli, vai achar isso ridículo, mas sinto vontade de fazer; pois algumas pessoas só viram o “Tens Fogo?” com bons olhos depois da minha explicação… Vamos lá…
Enredo.
O Tens Fogo é uma tentativa de representação do inferno, umbral, ou seja lá qual for o nome; é um lugar em que alguns espíritos vão depois que morrem, e lá ficam presos a sofrer, e só existe um jeito de sair de lá, que é um ajudando o outro… E a onde fica este lugar? Este lugar fica por aqui mesmo, na terra; só que em uma dimensão espiritual… Agora é preciso desenvolver uma breve idéia: “Quando espíritos sofrem próximos a nós, eles acabam nos influenciando de alguma forma; o sofrimento deles influi em nosso sofrimento; como se tudo tivesse de alguma forma interligado; assim sendo, o inferno influência diretamente nossa existência… Isso caberia a espíritos que não sofrem; quando algum espírito está em paz perto de nós, essa paz acaba nos influenciando também…”; isto não é uma pregação, é somente uma idéia para se entender o curta…
O Tens Fogo começa no Hotel com a Dai e a Dani; a Dai está dormindo e sofrendo intensas perturbações; uma possível crise de identidade ou de imagem; as crises com o “eu” é uma forma de representar o desespero… Mas o que atormenta ela? O que atormenta ela é o inferno que está próximo dela; na estação que fica lá perto… Começam as imagens da estação; é um lugar bonito e nada tem de assustador; aparece a Paula Machado lendo um livro; quando a câmera entra no livro, vemos as páginas em branco; é o convite para o mundo da Inexistência; “Mundo da Inexistência” seria como se fosse o inferno… Temos a cena com as vozes estranhas, que é a passagem para esse mundo; logo aparece a imagem da Bruna refletida em uma poça de água, ela é um espírito que está preso lá… Depois aparece o Del, outro espírito; que está preso ao cigarro, vaga pela estação tentando acendê-lo; ele vaga e encontra o personagem do Guilherme Haddad; que tem fogo, mas mesmo assim não ajuda o Del a acender o cigarro; é a alusão ao fato da gente ter como ajudar as pessoas que nos pedem ajuda, mas mesmo assim resolvemos não ajudar; um mendigo pede dinheiro a um milionário e o milionário recusa; assim como um andarilho pede comida a porta de uma casa, que mesmo com comida a ser jogada fora, não ajuda o andarilho; talvez não seja só para se libertar do inferno que temos que ajudar nosso semelhante, mas talvez até para nos libertar de nossa atual existência… A cena do Del e do Guilherme se repete; para tentar dar a entender que aquilo está a se repetir eternamente… Del é o único que tem consciência de onde estão; ele possuí uma fixação pela personagem da Bruna, e fica perseguindo-a e tentando alertá-la sobre a situação em que se encontram; mas ela não é capaz de ouvi-lo, eles não são capazes de se comunicar, a cena se repete pelo mesmo motivo da outra… Para sair do “mundo a inexistência” a Bruna tem que tomar consciência de sua condição, ela só conseguirá isso se ouvir o Del, mas ela é incapaz de ouvi-lo; Guilherme se libertará do umbral, quando aprender a ajudar aqueles que pedem sua ajuda, só se libertará quando acender o cigarro do Del; Já o Del, é um personagem mais complexo; ele pode ser encarado como um anjo, que está ali somente para libertar os outros dois; está ali só para fazer com que a Bruna tome consciência e se liberte; e tenta acender o cigarro só para tentar libertar o Guilherme do Egoísmo; porém o personagem do Del também pode ser interpretado como um espírito preso ao prazer material terreno, representado pelo cigarro… O curta volta ao Hotel e tem a cena do grito; e a Dai acorda assustada, como se tivesse vivido um pesadelo… É isso ai… No inferno, tens fogo?
Considerações da Produção.
Preciso falar um pouco deste trabalho; um pouco não; talvez eu tenha muito a dizer; não só pelo a obra representou para mim, mas também pelo que representou trabalhar com as pessoas as quais trabalhei nesse projeto… Antes de tudo, tenho de afirmar que foi um projeto muito conturbado e difícil; o tens fogo esteve em metamorfose por quase todo o processo; foi como se ele tivesse ganhado vida e vontade própria; a obra por si só ditava os rumos que queria tomar; muitas vezes me senti como uma marionete… Veja bem; ele começou como um curta-metragem para a aula roteiro da universidade; eu escrevi a primeira versão do roteiro; era muito cru, raso e sem grandes sacadas artísticas; o próprio professor disse isso, enquanto me ajudava na finalização do roteiro; apesar de todos os problemas que este professor teve com a minha sala, problema esse que chegou a te a um processo administrativo, para comigo ele foi legal; disse boas verdades sobre o projeto, como por exemplo: “Este roteiro é manequim sem corpo, só vejo os braços, as pernas e a cabeça, não vejo o corpo… Esse roteiro precisa de um corpo…” Ele tinha razão; porém mesmo assim insistimos na teimosia; digo insistimos, pois me refiro a Felipe Pacelli também, ele foi diretor de arte, produtor, roteirista e assistente de direção; na verdade ele foi o co-autor do Tens Fogo; então digo, eu e Felipe insistimos em nossa teimosia… Os lugares das gravações foram conselhos da Daniela Swidrak, que inicialmente iria ser somente maquiadora e figurinista, porém acabou atuando na direção de arte, produção e fez parte até do elenco; eu cometi um erro triste de não colocar na o nome dela nos créditos de direção de arte, mas assim que chegar a bauru, tentarei resolver este equívoco… Os lugares que a Dani escolheu foram muito bons e mudaram por completo nossas concepções sobre o roteiro; assim sendo, a Dani, acabou sendo responsável pelo início das mutações incontroláveis que o curta teve… Felipe e eu estávamos muito próximos, conversávamos muito sobre o projeto e sobre arte, cinema em geral, dessas discussões que as idéias foram se desenvolvendo… O ideal seria ter gravado com Super-8, que era minha real vontade, mas nós não tínhamos nada, nem câmera, nem dinheiro e nem experiência, então fomos com uma mini-dv mesmo, cedida pelo nosso querido amigo Felipe Almeida; infelizmente era só isso que tínhamos… Pacelli tinha uma amiga chamada Bruna, ela faria parte do elenco; chegou o primeiro dia da gravação com os atores; Bruna apareceu com um vestido branco e as imagens que fizemos dela foram as mais legais do dia; mas as imagens dela não estavam no Roteiro; ela acabou mudando todo o rumo da coisa; de novo o Tens Fogo sofreu mutação, graças a importantes performances da Bruna… Foi ai que entrou o Del… Para mim o Del é uma pessoa mágica; daqueles que é artista o dia todo; come, bebe, respira e vomita arte; é um cara sincero e sem medo, diz tudo que tem de dizer sem se importar com nada; na minha primeira reunião com ele, ele destruiu o tens fogo para mim: “Isso é muito fraco Leo, eu não vou atuar em algo tão sem corpo… É sem referências, está cru… Desenvolva! Vamos desenvolver esse negócio… Deste jeito está ridículo!” começamos a discutir sobre o negócio e ele me convenceu que as coisas tinham que mudar; comecei a buscar caminhos para fazer com que aquilo transformasse em algo melhor; naquela época eu tinha muita insônia, eram madrugadas bem difíceis, no meio de minhas perturbações tive umas idéias; contei para o Del… Ele me disse: “Isso é o Inferno de Sartre!” e me explicou como era esse inferno; juntei Sartre, com Beckett e remontei minha concepção do Tens Fogo; o tens fogo agora seria uma representação do inferno… Contei para Pacelli e ele parcialmente concordou; comecei a escrever a cena a qual Del andaria atrás da Bruna a dizer coisas; o texto inicial era enorme; muito agressivo e explícito; Pacelli não gostou nada, fez críticas severas ao texto e disse que aquilo estragaria tudo… Ele me convenceu de que era verdade; nós estávamos na casa do Del; Pacelli, Bruna e eu; foi lá que eu e o Pacelli terminamos o texto que o Del falaria na gravação do dia seguinte; o texto ficou 1/5 do original, na verdade nós deixamos algumas falas chaves, tentando deixar a semântica obscura e não direta; o roteiro do Tens Fogo foi então, parcialmente finalizado… Havíamos terminado as gravações da estação; faltavam as cenas do Hotel e as da Ponte; as da ponte acabaram, infelizmente ou felizmente, nunca acontecendo… As do Hotel, gravamos com a Daiane, uma ótima atriz que havia estudado em Bauru, conheci Del e ela na montagem do Hamlet; ela não morava mais lá, mas gentilmente viajou para Bauru somente para nos ajudar… A semântica das cenas do hotel era outra; porém outro sentido acabou surgindo… Então… Finalizamos as gravações; porém; nós não sabíamos que tínhamos um longo caminho pela frente… Na hora de editar foi complicado; muito complicado; Tadeu e Leo Portes estavam envolvidos com um curta em t2i chamado Mau-Olhado, assim sendo, não editaram o tens fogo; isso causou problemas pessoais entre nós, tanto que eu estava escalado como roteirista do Mau-Olhado, mas fui substituído após o atrito; foi meio complicado para mim, porque eu queria dar logo uma resposta concreta a Felipe Pacelli, Bruna, Del, Daiane, Dani e toda a produção; tentei editar de outras formas, mas sem sucesso… As edições não começaram em 2010, foram somente começar em março de 2011; demoraram, mas acabamos conseguindo terminar; graças às enormes ajudas de Leo Portes e Tadeu Parisoto… Faltava somente a sonorização; foi quando encontrei um instrumento completamente estranho e doido, que não consigo nem descrever, o peguei emprestado(gentilmente cedido pelo Brisa), compus a trilha sonora e sonorizei na casa do Cambota, Sagüi e Brisa… No computador do Fulvio(Um Mac lindo e gigante; o computador mais belo que já usei)… Tens Fogo chegou ao fim, e apesar de tudo gostei do resultado… Eis a saga do tens fogo… Queria um dia ter a oportunidade de agradecer cada uma das pessoas pessoalmente; pois como já enviei em mensagem, estou eternamente e ternamente grato com eles… Fico muito feliz por ter trabalhado com Felipe Pacelli, ter sido co-autor de algo junto a ele, foi uma ótima experiência, admiro-o como artista, profissional e pessoa… Tenho que agradecer o incentivo do Tadeu Parisoto, que foi fundamental no processo de finalização do Tens Fogo, foi um grande amigo… Leo Portes, um grande amigo, que ajudou na produção e fez uma das funções principais na edição… Felipe Almeida pela câmera e pela companhia sempre ilustre… Daniela Swidrak, porque sem ela não teríamos chegado à estação, nem ao hotel e a composição visual da obra não seria como foi… Agradecer também ao elenco… Bruna que reinventou o Tens Fogo e fez uma atuação brilhante… Daiane, que de uma estética cinematográfica a obra, como seu ar de atriz de Nouvelle Vague… Del Luiz, por ser um dos mais interessantes artistas que já conheci; e que se não fosse ele o Tens Fogo não teria crescido artisticamente… Guilherme que nos ajudou a fumar seu cigarro nas gravações… E a Paula, coitada, a fiz acordar 5 e 30 da manhã só para ir na estação gravar uma cena de 30 segundos, desculpas… Ao Fúlvio, Sagüi, Cambota, Brisa pela ajuda na sonorização… Ao professor Winck pela ajuda no roteiro… É isso ai… Tens Fogo?
Leo Vituri
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Às vezes dá vontade de escrever; para quem? Acho que para mim mesmo… Tenho um pouco de medo das pessoas; por isso às vezes escrevo e acabo apagando o que escrevo; medo do que? Não sei… Mas voltei; voltei a esse lance de escrever para internet; fico a semana inteira escrevendo meus romances e isso cansa bastante; preciso de um lugar para escrever qualquer coisa; sem medo; sem precisar da continuidade; é assim… Mas porque dessa necessidade de escrever tanto? Não tem aquele ditado que diz quer nascemos com dois ouvidos e uma boca; para ouvirmos mais do que falamos… Escrevíamos (antes da internet) com uma mão só, e líamos com dois olhos; talvez para lermos mais do que escrevermos… Sabe de um negócio; esse ditado não cabe aos artistas; artistas são pessoas de mil bocas; mil mãos; precisam falar; escrever; precisam se expressar; infelizmente é assim, nós precisamos… Perdoem-me por todas as palavras, proferidas pela boca, por todas as palavras proferidas pelas mãos; são palavras que brotam sem pedir licença… É assim… Sempre falando demais; sempre tendo mais coisas a dizer…
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